sábado, 13 de setembro de 2014

Odisseu revisitado

Embora a mídia tenha lhe dado amplo destaque, por alguma razão que até hoje não compreendi bem por que, naquela ocasião, ao ler a notícia no jornal, aparentemente não lhe atribui a menor importância. Posso dizer até que praticamente a ignorei, apesar de tê-la lido. O interessante, porém, é que, justamente hoje, nesta manhã fria e chuvosa de 1 de abril, enquanto tento estabelecer um mínimo de ordem nesta inútil papelada que eu teimo em guardar, tentativa talvez fútil de querer preservar de alguma maneira o passado, meu olhar ao percorrer a manchete estampada na primeira página do velho jornal  desencadeou antigas lembranças em meu pensamento que passou a divagar devagar fazendo com que aquela longínqua notícia imediatamente desabrochasse por inteiro em minha mente. Como que iluminado por um clarão do além, além de me lembrar dos detalhes, fui além e também passei a me lembrar das linhas gerais daquele insólito acontecimento que, ao que me parece, ocorrera mais ou menos conforme a seguir tentarei relembrar.
Odisseu Grossmann era um yupee enriquecido precocemente graças a audaciosas especulações astuciosas muito bem sucedidas que realizara nos últimos anos no mercado de commodities. Afinal ele não era de ficar acomodado em suas commodities. Agia sempre bem rápido. Se o mercado era tomador, enfiava. Se vendedor, tomava. E assim, enfiando e tomando construiu uma imensa fortuna.  Supérfluo seria dizer que tais operações eram absolutamente legais e, apesar de terem caráter global, isto é, serem realizadas interativamente nas principais bolsas financeiras do mundo, mediante sofisticados recursos da tecnologia informática, como sói acontecer atualmente nesses casos, a base operacional de Odisseu era a modesta Bolsa de Klysteropol, capital da República do Azizquerbeijão. Mas isso tudo, a bem da verdade, não tem a menor importância.
Odisseu, jovem, já sentia o esgotamento da velhice. Esgotamento mental e físico. Esgotamento proveniente da terrível pressão psicológica que sofria diariamente. Não era brincadeira. Quem está de fora não faz a menor idéia do que ele passava jogando na bolsa. Ou se faz, não está de fora e compreende o que digo o que torna assim, em ambos os casos, desnecessária a observação, dada sua inutilidade. Vinte quatro horas (às vezes até mais) por dia todos os dias da semana (exceto no Dia de Ação de Graças, no Dia de São João, no Dia da Independência, no Dia da Padroeira, no Dia de Natal, no Dia Primeiro do Ano e no dia do aniversário da sua (dele) mãe). Todas as semanas do mês (exceto na Semana Santa, na Semana do Carnaval, na Semana da Pátria e na semana do Natal), todos os meses do ano (exceto em Janeiro, Fevereiro e Julho), durante anos e anos a fio, nos últimos cinco ou seis anos, comandando seus negócios de commodities, ainda que o fizesse na comodidade de seu luxuoso escritório. A tal ponto chegara seu estado de ânimo que um belo dia, uma segunda-feira fria e chuvosa, sem mais nem porque, decidiu que a partir de então iria mudar radicalmente de vida. Resolveu “chutar o pau da barraca” como às vezes se costuma dizer coloquialmente. Chutar o pau da barraca não em sentido literal, evidentemente, mas em sentido figurado. Mesmo porque, naquela altura dos acontecimentos, apesar de muito rico, não tinha barraca. Tinha uma tremenda cobertura triplex de 2652 m2 no bairro mais chique da cidade. Mas barraca não tinha. Tendo acumulado um extraordinário patrimônio em bens móveis, imóveis e semoventes poderia viver nababescamente o restante de sua vida, qualquer fosse a duração dessa vida, sem preocupação com trabalho. Quando se diz “qualquer fosse a duração dessa vida” deve-se, evidentemente, subentender um espaço de tempo razoável, dentro da expectativa média de vida de uma pessoa saudável, digamos, por exemplo, 83 anos de idade. E “sem preocupação com trabalho”, a rigor, deve significar sim “sem preocupação em ganhar dinheiro” coisas que, qualquer um que tenha o mínimo senso sobre o sentido das coisas sabe são coisas bem distintas uma da outra.
Odisseu, indivíduo extremamente esperto, astuto, bom de lábia, conseguiu desfazer-se de seu negócio rapidamente e com polpudo lucro. Comprou uma lancha off shore, avisou sua fiel esposa, Aracne, que iria se ausentar por uns vinte anos, mais ou menos, pediu a ela que, por favor, tivesse paciência de esperá-lo, porque o que ele iria fazer era muito importante para ele, se ele não o fizesse iria viver o restante de sua (dele) vida frustrado, amargurado, infeliz etc.e, marido realizado, alegre, feliz etc. já é um saco, imagine então o oposto, que ela fosse tricotando umas blusinhas pra passar o tempo e enrolar os pretendentes até ele retornar,  e caiu no mundo. Passou a navegar pelos mares e oceanos do planeta. Dali em diante para ele navegar seria mais preciso até do que viver, embora, convenhamos, seria difícil navegar sem estar vivo, porque para ele navegar era viver paixão antiga cravada no imo do peito. Tudo isso, de acordo com os fatos (e a lenda).
Odisseu passou, assim, a conhecer lugares e povos interessantíssimos. Em uma de suas viagens, aportou na cidade de Saracura importante ponto turístico do Mare Vostrum meridional. Enquanto a tripulação cuidava do reabastecimento de combustível e alimentos, Odisseu dirigiu-se à lanchonete da marina para fazer xixi, lavar o rosto e beber um suco natural de cidra, tradicional bebida deliciosa, dizem, daquela região. Conversando com um, conversando com outro, porque Odisseu era, além de astuto, muito bom de papo, ficou sabendo da existência de uma ilha onde, de maneira alguma, se deveria tentar atracar. Até mesmo se deveria evitar passar pelas imediações. Era a Ilha das Virgens, nome proveniente de antiga tradição do fisiologismo feminino, hoje considerado anacrônico. Naquele lugar ocorria um estranho fenômeno. Sereias tinham o costume de ali se reunirem. Ao perceberem a aproximação de algum nauta incauto se transformavam em exuberantes mulheres peladas, iguaizinhas a essas produzidas pelo photoshop para as capas de revista de mulher pelada, e assumindo libidinosas posições, iguaizinhas a essas das páginas internas das revistas de mulher pelada, procuravam atrair o navegante em sua direção. Nas proximidades da ilha correntes marítimas traiçoeiras arrastavam o barco de encontro aos rochedos apenas submersos provocando o inevitável naufrágio da embarcação e sendo aquelas águas infestadas por vorazes tubarões a morte do nauta incauto era líquida e certa (ou por afogamento simples ou por estraçalhamento pelas mandíbulas dos aquáticos assassinos ou por ambas as causas ou por outra causa qualquer).
Odisseu pretendia seguir rota que passava justamente pela Ilha das Virgens. Nem lhe passou pela cabeça a ideia de mudar de rumo. Ele era um sujeito muito pertinaz. Por ser também muito astucioso engendrou um plano para ludibriar as sereias. Ordenou fosse amarrado ao mastro da antena da lancha; as coordenadas de navegação foram calculadas e o barco ligado no piloto automático; a tripulação toda vestiu capuz preto que vendava completamente seus olhos, apenas Odisseu não pôs o capuz; e seguiram adiante. Quando o barco se aproximou da ilha, as sereias se transformaram em exuberantes mulheres peladas, iguaizinhas a essas produzidas pelo photoshop para as capas de revista de mulher pelada, e assumindo libidinosas posições, iguaizinhas a essas das páginas internas das revistas de mulher pelada, procuravam atrair os navegantes em sua direção.  Os marinheiros estavam com os olhos vendados e nada podiam ver do que fora se passava. Odisseu, ao contrário, sem venda, estava totalmente vendido. Vendo aquele mulherio todo pelado e em atitudes, quiçá poderia dizê-lo, sem risco de parecer falso moralista, indecentes começou a ficar excitado. Tentava fechar os olhos para não olhar lançando mão de sua esperteza, mas a força do desejo era superior à da astúcia e olhava, olhava com o rabo do olho, mas olhava e olhando ia ficando mais excitado, cada vez mais excitado, estava já praticamente com ereção total embora a bermuda impedisse o livre trânsito do membro. Os membros da tripulação encapuzada permaneciam alheios ao que se passava no tombadilho.
Um pequeno erro de arredondamento no cálculo das coordenadas de navegação, acentuado pelas correntes marítimas traiçoeiras existentes naquelas águas, fez com que a lancha, que navegava em piloto automático, conforme já mencionado, se desviasse do rumo pretendido e fosse, perigosamente, em direção aos rochedos apenas submersos que circundavam a ilha. Os tripulantes nada faziam (quer dizer, nada não, na verdade eles estavam batendo papo sobre coisas banais, nem imaginando a fria em que estavam se metendo), pois estavam encapuzados, conforme já mencionado. Odisseu, agora de olhos arregalados, grunhia alguns monossílabos sem nexo, babava bastante, contorcia-se todo, principalmente os braços dando a impressão que pretendia livrar as mãos amarradas para – quem sabe?, não posso afirmar com certeza – agarrar o membro que tencionava o tecido da bermuda quase a ponto de rasgá-lo, talvez para aliviá-lo de tamanha tensão, e não dava a mínima para o perigoso desvio da rota do barco.
A catástrofe ocorreu num piscar de olhos. A lancha foi a pique em poucos minutos ao ter o casco rasgado de cabo a rabo por um abrolho. Os vorazes tubarões que infestavam aquelas águas fizeram a festa (como político depois que toma posse). Todos os marinheiros foram comidos literalmente. Odisseu, cabeças estraçalhadas, o pouco que restou da superior, pendurada ao tronco, sem os cinco membros, morreu na praia. Estava quase que irreconhecível. Foi identificado pelo exame da arcada dentária como sói acontecer nestas circunstâncias. Resultado confirmado, a título de dirimir qualquer dúvida, pela comparação de seu DNA com o de uma prima paterna de primeiro grau (um dado adicional comprobatório da identificação do morto foi uma tatuagem de sereia que ele tinha no lado superior esquerdo das costas (parte milagrosamente (para quem acredita em milagres), inexplicavelmente (para quem é agnóstico) não atacada pelos tubarões).
Um velho, antigo morador da ilha, em entrevista a uma rede de TV a cabo, reproduzida no jornal em que eu lera a reportagem completa dos acontecimentos, afirmou categoricamente que as sereias, logo após terem cumprido sua missão, transformaram-se novamente em piranhas (uma espécie especial de piranha que vive em água salgada), que é o estado natural delas, saltaram para as ondas que arrebentavam no costão da ilha e desapareceram nas profundezas do mar (certamente, talvez, até outro incauto nauta aparecer por lá).

(do livro “Contos Medonhos “ )

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