domingo, 29 de março de 2020

Mau cheiro da memória

erro e acerto são conceitos
em que me aterro com desacerto
procurando entender a lógica
embutida nestes preceitos

posso aceitar a ideia precária
pra me ajudar na conduta diária
que erro se prejudico a mim ou a meu
semelhante sendo acerto o seu contrário

afirma o gasto clichê que
errar é próprio do humano
perdoar é um ato supimpa
vindo de cima dito divino

vai daí que pra fazer jus à raça
devo prejudicar a mim e a todos
a todo instante fonte de desgraça
me achando esperto os outros tolos

cabe aqui creio uma consideração
visando amenizar da vida a tensão
sem banalizar a conduta pobre
muito menos aquela que é nobre

apesar de todas minhas cagadas
vou tocar pra frente na estrada
evitando chafurdar no lodaçal
de tudo quanto causo de mal

visto que uma tal atitude
como sói acontecer amiúde
em nada contribuiria
pro caminho da alegria

erros que tenho cometido
moderem meu ser atrevido
para que possa ser amanhã
uma pessoa menos malsã

e toda vez que sentir feder
o mau cheiro da memória
vou relevar sem esquecer
que é parte da minha história

domingo, 22 de março de 2020

Vaidade tudo vaidade

não há sabão bastante pra lavar toda esta imensa sujeira
que entretém o noticiário diário sobre esta fina gentalha
que translucidamente não larga do poder nem a porrada

isso não é coisa passageira é inerente à humana natureza
ser amiga fervorosa até os ossos da vaidade e da riqueza
porque aquilo que conta é a grana pois com ela tudo tá bacana
quanto ao povão na precisão que tome no redondinho quietinho
isso ninguém há de contestar nem criança em idade pré-escolar
se alguém pretender fazê-lo vai parecer que está fora do ar

por exemplo quando fico aqui dando panca de lúcido
jogando fora palavras inúteis pela brisa mal arrastadas
bocó acho que sei o que se passa com a desgraça alheia
escondido em falsa compaixão que o coração aligeira
nítido no duro tudo aceito e no conforto me esgueiro

domingo, 15 de março de 2020

Mera quimera

desocupado devagar divago
olho ao redor com visão cansada
e o que meu olhar enxerga
não consegue me dar alegria

na frente a sinistra concreta muralha
formada por tantos outros edifícios iguais
se exibe pela janela do apartamento apertado
disputando cada palmo de solo ou mais

no alto a nesga de céu empalidecido
pela fumaça que paira permanente
sobre nossas cabeças duras
cancerando nossos precários pulmões

embaixo a massa viscosa de veículos
cercada pelo formigueiro humano
entulha as ruas cobertas de detritos todos
tentando encontrar espaço para locomoção 

e penso talvez este estado de espírito pessimista 
deva ser próprio da velhice
tendo alcançado provecta idade
tendo a encarar tudo com rabugice

todavia como acreditar que a ampliação do
conhecimento alcançado em todos os cantos
escarafunchados pela espécie humana é um bem
se ele nos proporciona em grosso esse tipo de vida

e me vem o desejo de gritar em alto brado
assim não dá mais a terra chora suas perdas
é preciso urgente acabar com tal loucura
estamos todos indo pro fundo do abismo

porém me calo não digo nada bobagem
pretender mudar o mundo com vazias
palavras quem me dera eu ridículo vendo a
vida escoar mal dando conta das minhas dores