contemplo na tela embevecido pela graça
o corpo que se movimenta ondulante
com elegância roubando a cena a todo instante
da mulher esplendorosa quiçá obra divina sem jaça
capaz de aliar ao perfil delgado aparência de força
me induzindo a pensar que talvez tenha sido feito
para o sonho impossível de um inacessível leito
a presença constante do voluptuoso ambiente
propicia a criação de condição de pleno êxtase
tão almejado para gozo do langor consequente
fato que hoje não enrubesce mais nenhuma face
afinal é traço marcante característico do sexo
mesmo quando envolvido em paixão sublime
que o faça dotado de vigor maior que o da carne
aliando ao encanto carnal excitante valor moral
na doce convivência de beleza física e espiritual
mas o olhar ao vivo e de perto encontra vil surpresa
a divina figura portadora de prometida ventura
vira um monstro medonho merecedor de desprezo
a singeleza da imagem é uma deslavada impostura
condizente com vida em que prospera a falsidade
e ferozmente é disputada a perniciosa vanglória
e traição o que se deve esperar como atitude sincera
a mentirosa máscara pretende deixar escondida a marca
do tempo implacável sobre o corpo da pobre criatura
de pele tão esticada pela plástica que o peito bate na cara
e o mito da juventude eterna induz a inevitável riso
só impedido por compaixão à pessoa tão desprovida de siso
incompleta se olhando no espelho não há como não se sentir patética
por querer colocar o mundo a seus pés pela força de ruinosa estética
o dano provocado por fora acompanha o mal que lhe rói as entranhas
insensato daquele que se deixa iludir pelo culto de uma imagem falsa
mais dia menos dia irá deplorar pelas consequências do engano nefasto
não é nada fácil aceitar o desgaste atroz inevitável do corpo da gente
porém não há como manter o ontem agora e pra sempre
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domingo, 28 de julho de 2019
domingo, 21 de julho de 2019
Doravante
não caminharemos mais sobre as águas
usando o artifício de pedras submersas
para o apoio dos pés
e engodo dos crédulos
porque a partir deste instante
seremos etéreos
eternos senhores de nosso corpo
não mais existente
massa particular de partículas sobre a crosta
agora livre do jugo dos sentimentos
geratriz apenas talvez
de difusas lembranças fugazes
em seu inexorável retorno ancestral
aquém e além do bem e do mal
usando o artifício de pedras submersas
para o apoio dos pés
e engodo dos crédulos
porque a partir deste instante
seremos etéreos
eternos senhores de nosso corpo
não mais existente
massa particular de partículas sobre a crosta
agora livre do jugo dos sentimentos
geratriz apenas talvez
de difusas lembranças fugazes
em seu inexorável retorno ancestral
aquém e além do bem e do mal
domingo, 14 de julho de 2019
Como ia dizendo
hábito antigo sempre tão atual é o
beija-mão de ladrões desde que endinheirados
basta folhear as páginas de nossa história pra constatar
o fato e bom número de poetas se especializaram no ato
aproveito pra dizer que não quis lareira em minha casa
pra não ser responsável em dar o mesmo destino que tem
sido dado a grande parte das árvores das nossas florestas
na verdade em sinal de protesto até parei de comer churrasco
todavia agora me calo não pretendo jogar lenha nessa fogueira
afinal o sol nasce para todos embora só alguns o aproveitem
satisfatoriamente nunca deveríamos nos esquecer disso
a recompensa por não mais existir é poder ter existido
enquanto zilhões desempenham o papel de meros pregos
nesta tragicomédia minorias protagonizam como martelos
e se vai acreditando que ao morrer se alcança a vida eterna
embora creia que melhor fosse talvez crer na morte eterna
beija-mão de ladrões desde que endinheirados
basta folhear as páginas de nossa história pra constatar
o fato e bom número de poetas se especializaram no ato
aproveito pra dizer que não quis lareira em minha casa
pra não ser responsável em dar o mesmo destino que tem
sido dado a grande parte das árvores das nossas florestas
na verdade em sinal de protesto até parei de comer churrasco
todavia agora me calo não pretendo jogar lenha nessa fogueira
afinal o sol nasce para todos embora só alguns o aproveitem
satisfatoriamente nunca deveríamos nos esquecer disso
a recompensa por não mais existir é poder ter existido
enquanto zilhões desempenham o papel de meros pregos
nesta tragicomédia minorias protagonizam como martelos
e se vai acreditando que ao morrer se alcança a vida eterna
embora creia que melhor fosse talvez crer na morte eterna
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