tomei um banho gelado
lavei bem as partes pudendas
com sabonete glicerinado
mas não adiantou nada
continuo impregnado
desta pasmosa pobreza de pensamentos estéreis
fardo pesado em minhas entranhas
escuras profundezas do passado
que me causam um grande cansaço
resultante de inquietante amargura
por ter sido alvo de escárnio grotesco
chego quase a sentir asco
tecido por malignas mentes dementes
ao menos esse é meu ponto de vista
bem merecido segundo meus inimigos
todavia
enquanto o futuro vem suponho
trazendo seus flutuantes enigmas
com poucas rosas muitos espinhos
eu ser mesquinho que por mais insista
não consigo cultivar um rosto amigo
nem apreender a beleza do riso espontâneo
desfaço do olhar desprezo pelo semelhante
e tento superar a mim mesmo
nem que fosse num derradeiro gesto
e almejo a condição sublime do alcance
da generosidade das grandes almas
voltando as costas para meu egoísmo
mas essa réstia de vontade de bondade
não dura mais que um fiapo de segundo
recordo os tempos para trás
especulo os tempos para frente
um calafrio percorre minha espinha
e bem depressa deixo na saudade
minha intenção de bons propósitos
o máximo de boa aventurança
que sou capaz de imaginar atingir
com o uso de máscaras melhores
é viver em plena indiferença
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domingo, 12 de julho de 2020
domingo, 5 de julho de 2020
Pedra de toque
para se medir o grau de insanidade de uma pessoa
há um método infalível companheiro numa boa
de guru indiano com quem fui me aconselhar
pouco a pouco porém acabei por o abandonar
afinal tudo aquilo era mesmo muito complicado
então decidi me desmedir de um modo descarado
e cada dia que passa passo mais dos limites
sem dúvida sem conseguir saciar meus apetites
sigo assim meu caminho deste jeito horripilante
que apesar de tudo me faz continuar a ir adiante
embora concorde seja esta conduta inaceitável
nela sou assaz ditoso minha vida é agradável
e dela não pretendo assumir posição insurgente
certa vez ia eu por um rio que cria navegável
ali deslizavam cisnes negros de maneira amigável
quando a barcaça que me transportava começou
a balançar devido a ondas enormes e naufragou
soube depois ter sido obra de terríveis vendavais
saídos do fundo da água e extravagantes demais
quem me contou foram uns peixes de olhar estranho
tinham os olhos arregalados bigode cabelo castanho
estampavam nas faces rosadas risos sardônicos
e agitavam os carnudos rabos imaginei irônicos
dali fui assistir apesar de meu feitio antissocial
a um imprevisto entretanto bem-vindo funeral
em que foram proferidos intermináveis discursos
à beira da tumba desfiando todo o maravilhoso percurso
da vida exemplar do morto sem nenhuma negligência
de suas excelsas qualidades durante tardia existência
coroada com a demora em ir praquele buraco escuro
até as coroas começavam a murchar meu corpo a ficar duro
devido ao frio reinante e no ar já se sentiam putrefatos odores
um pouco mais o defunto ressuscitaria causando dissabores
fato que os oradores não percebiam provocando mal-estar geral
depois do enterro enfadonho o que me ocorreu foi quase um sonho
nesta vida tão dura nunca pensei viver ventura de tal envergadura
se é que assim posso ter a ousadia de chamar
melhor do que comer cereja direto no pomar
para a qual abri meio por inteiro meu coração combalido
fazendo o raio luminoso no cristal em sete cores fendido
fenômeno físico há muito conhecido naturalmente
me enamorar nesta idade não passava pela mente
ficar aqui cheio de cuidados com minha aparência
aos beijos e abraços pelas esquinas uma indecência
não tive força pra controlar e deixei desencadear
aqueles instintos carnais que são bons demais
reprimidos desde a mais tenra idade por vaidade
como se assim pudéssemos coibir os nossos erros
esforço inútil nem a fogo nem a ferro nem aos berros
eles somem e não me venham torcendo o nariz
que eu cá tenho uma tromba que não é de petiz
pra chegar até aqui fiz incontáveis malabarismos
tive de desenvolver destreza com os algarismos
vi o zé erguer para em seguida arrefecer ora vamos
vocês sabem o que digo vocês também são do ramo
não era uma mulher qualquer era uma mulher
com agá maiúsculo digna das maiores homenagens
por ela desci do pedestal despi todas as roupagens
abandonei meu barco ao sabor do vento
nem percebi como passava rápido o tempo
quando dei por mim tinha me convertido
num perdido completo sem chance de remédio
e feliz imensamente feliz vacinado contra o tédio
esquecido daquele período amargamente vivido
do qual para ser franco bem pouco me orgulho
pra falar a verdade dele o que sinto é engulho
que procurei esquecer e passei a viver benquerido
há um método infalível companheiro numa boa
de guru indiano com quem fui me aconselhar
pouco a pouco porém acabei por o abandonar
afinal tudo aquilo era mesmo muito complicado
então decidi me desmedir de um modo descarado
e cada dia que passa passo mais dos limites
sem dúvida sem conseguir saciar meus apetites
sigo assim meu caminho deste jeito horripilante
que apesar de tudo me faz continuar a ir adiante
embora concorde seja esta conduta inaceitável
nela sou assaz ditoso minha vida é agradável
e dela não pretendo assumir posição insurgente
certa vez ia eu por um rio que cria navegável
ali deslizavam cisnes negros de maneira amigável
quando a barcaça que me transportava começou
a balançar devido a ondas enormes e naufragou
soube depois ter sido obra de terríveis vendavais
saídos do fundo da água e extravagantes demais
quem me contou foram uns peixes de olhar estranho
tinham os olhos arregalados bigode cabelo castanho
estampavam nas faces rosadas risos sardônicos
e agitavam os carnudos rabos imaginei irônicos
dali fui assistir apesar de meu feitio antissocial
a um imprevisto entretanto bem-vindo funeral
em que foram proferidos intermináveis discursos
à beira da tumba desfiando todo o maravilhoso percurso
da vida exemplar do morto sem nenhuma negligência
de suas excelsas qualidades durante tardia existência
coroada com a demora em ir praquele buraco escuro
até as coroas começavam a murchar meu corpo a ficar duro
devido ao frio reinante e no ar já se sentiam putrefatos odores
um pouco mais o defunto ressuscitaria causando dissabores
fato que os oradores não percebiam provocando mal-estar geral
depois do enterro enfadonho o que me ocorreu foi quase um sonho
nesta vida tão dura nunca pensei viver ventura de tal envergadura
se é que assim posso ter a ousadia de chamar
melhor do que comer cereja direto no pomar
para a qual abri meio por inteiro meu coração combalido
fazendo o raio luminoso no cristal em sete cores fendido
fenômeno físico há muito conhecido naturalmente
me enamorar nesta idade não passava pela mente
ficar aqui cheio de cuidados com minha aparência
aos beijos e abraços pelas esquinas uma indecência
não tive força pra controlar e deixei desencadear
aqueles instintos carnais que são bons demais
reprimidos desde a mais tenra idade por vaidade
como se assim pudéssemos coibir os nossos erros
esforço inútil nem a fogo nem a ferro nem aos berros
eles somem e não me venham torcendo o nariz
que eu cá tenho uma tromba que não é de petiz
pra chegar até aqui fiz incontáveis malabarismos
tive de desenvolver destreza com os algarismos
vi o zé erguer para em seguida arrefecer ora vamos
vocês sabem o que digo vocês também são do ramo
não era uma mulher qualquer era uma mulher
com agá maiúsculo digna das maiores homenagens
por ela desci do pedestal despi todas as roupagens
abandonei meu barco ao sabor do vento
nem percebi como passava rápido o tempo
quando dei por mim tinha me convertido
num perdido completo sem chance de remédio
e feliz imensamente feliz vacinado contra o tédio
esquecido daquele período amargamente vivido
do qual para ser franco bem pouco me orgulho
pra falar a verdade dele o que sinto é engulho
que procurei esquecer e passei a viver benquerido
domingo, 28 de junho de 2020
Parole parole parole
palavras mal ditas
seu excessivo sal estupora a pressão do sangue
são palavras condenadas
fazem a gente ficar exangue
palavras bem ditas
açucaradas detonam a glicemia
são palavras perigosas
precisam ter absorção cuidadosa
palavras não ditas
têm o sabor da neutralidade do nada
são palavras salvas pelo silêncio
merecem salva de palmas
seu excessivo sal estupora a pressão do sangue
são palavras condenadas
fazem a gente ficar exangue
palavras bem ditas
açucaradas detonam a glicemia
são palavras perigosas
precisam ter absorção cuidadosa
palavras não ditas
têm o sabor da neutralidade do nada
são palavras salvas pelo silêncio
merecem salva de palmas
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