segunda-feira, 8 de junho de 2020

Pandemônio

os cadáveres
em sacos plásticos
empilhados em câmaras frigoríficas
instaladas a título de necrotério suplementar
especializado naquele tipo de pandemônio
do lado de fora do edifício do nosocômio
pacientes aguardavam o sepultamento coletivo
nas valas recém-abertas pelas retroescavadeiras
no terreno improvisado em cemitério
na periferia pobre da megametrópole
enquanto sob o manto protetor do poder
que lhe foi investido democraticamente
pelo povo pelo voto virtual
depositado inconsequentemente
em uma urna eletrônica
a maior parte a parte suja familiar 
limpava os cofres do erário 
se livrando das dívidas
com membros e sequazes tendo
nas almas obscuras ódio
sangue nas mãos opressoras
gordos de corpo vazios de mentes
do que mais careciam era vontade de equidade
o que de melhor produziam era disfarçada corrupção 
cujo indisfarçável fedor empestava o meio ambiente
a tal ponto que o inferno
rindo a bandeiras despregadas
defecava sobre a cabeça da esperança
de dias menos piores que cabisbaixa
aceitava aquela imundice sem pestanejo
no palácio crepuscular como coisa oficial
a bandeira no meio do pau
indicava nojo normal
por cinquenta mil dias
homenagem aos vivos
no novo pandemônio

domingo, 31 de maio de 2020

Nossos nós

estes nós
que o tempo aflito
não desata
engastam nas costas
sem prazo
este arreio
que cala os ódios no peito

pensos contratos
enganos tantos
armadilhas dispostas
em cada palmo
da vasteza do mundo

perdidos
buscamos guarida
encontramos amiúde
morada sem beiral
paredes sem prumo
abrigo assombrado
para aí ficarmos
na espera do nada

domingo, 24 de maio de 2020

Otimista de menos

todo esse horror ao meu redor
me dá calafrios
que percorrem a espinha
da nuca ao rabo
porejando suor no rego dos glúteos
olho para trás
morada das sombras do passado
para mim tempo de amarguras
não sinto saudade
olho para frente
onde dizem vive a esperança de tempos melhores
procuro me imbuir de bons propósitos
porém sou arrastado pela inquietude
vejo o mar de lodo se agigantando adiante
não consigo ter a ingenuidade de enxergar diferente
talvez devesse usar máscaras melhores
deixo de lado por instantes o escárnio
e faço um esforço para minhas entranhas estéreis
ruminarem toda essa pasmosa pobreza
todavia o fardo é demasiado pesado
cai sobre mim um grande cansaço
meu consolo é que um dia tudo isso perece