domingo, 9 de julho de 2017

Único


o momento escorre pelos vãos do tempo
primitivo conceito oriundo do movimento
eterno mistério inescrutável para sempre
oculto por mais que a ciência tente o oposto

embora isso possa parecer estranho
à primeira vista destituído de sentido
caso se deixe os pensamentos fluir
soltos se afigura como coisa natural

limpo de corpo nem tanto talvez de alma
busco com sua somatória preencher meu
dia outro dia uma sequência em que mal
me reconheço morador de outras terras

suspiro profundo novamente acreditando
assim provar a minha existência em que
todos apesar de encadeados são sozinhos
ou em outras palavras cada um é único

domingo, 2 de julho de 2017

Progresso


aproveito a comodidade oferecida
pelo extraordinário desenvolvimento
que a microeletrônica tem atingido
e abro meu houaiss3 eletrônico na palavra
progresso
onde encontro
entre outras acepções
para o uso em sentido absoluto
o significado de
a evolução da humanidade
da civilização
modernização
meu aurélio século xxi
proporcionando igual comodidade
informa que
progresso
é “acumulação de aquisições materiais e de conhecimentos objetivos capazes de transformar a vida social e de conferir-lhe maior significação e alcance no contexto da experiência humana civilização desenvolvimento”
um dia desses
em visita a um dos sebos do centro por acaso
me caiu nas mãos um livro de fotografias
da minha cidade na primeira metade do século passado
folheando aquelas memoráveis páginas
enchi meus olhos de imagens incríveis
se comparadas ao estado atual da megalópole
me ative a uma série de fotos
tiradas em diversos pontos ao longo
das margens do rio tietê em seu trecho urbano
em particular algumas ali nas proximidades
onde hoje existe a ponte cruzeiro do sul
me encantei de ver
barcos a remo
disputando uma regata
um solitário pescador
de chapéu e colete
em um ponto da margem
retirando um peixe do anzol
com a vara de pesca sob as axilas
observado pelos ocupantes de um barco a remos
que navegava pelo meio do rio
um nadador em pleno voo
a partir de uma plataforma de madeira
num sensacional salto de anjo
audazes mulheres saindo das águas
ao término da primeira travessia
do rio a nado
realizada no ano de 1924
quando fechei o precioso livro documentário
divisei na estante de literatura brasileira
bem ali em frente o livro
“poesias completas” de mário de andrade
não resisti e abri na página 44
em que estava o poema tietê
do pauliceia desvairada
li
“era uma vez um rio...
.......................................................................................................................
as embarcações singravam rumo do abismal descaminho...
.......................................................................................................................
— nadador! vamos partir pela via dum mato-grosso?
— io! mai!... mais dez braçadas...
.....................................................................................................................”
sem saber bem por que
saí daquela livraria de livros usados
com o coração cheio de nostalgia e
passei a caminhar a esmo pelas ruas
quando me dei conta
estava sobre a ponte cruzeiro do sul
aturdido observei
o trânsito incessante
de cá pra lá e de lá pra cá
sobre os dois lados da ponte
o engarrafamento infernal
abaixo se estendendo a perder de vista
em todas as pistas da marginal
as motos costurando como doidas
os outros veículos
que se arrastavam como lesma
os olhos passaram a lacrimejar ao contato com
a fumaça dos escapamentos
apesar do controle oficial do ar
ouvi quase ensurdecido
a zoada dos motores e
as buzinas neuróticas
inutilmente
querendo abrir espaço no berro
olhei para aquele rio morto
encurralado na calha de concreto
construída com os bilhões financiados pelos japoneses
na tentativa vã de conter as inundações ribeirinhas
alto preço pago pela ocupação irresponsável do solo
com suas águas pútridas cobertas de
espuma tóxica
lixo
restos de
plástico
móveis podres
carniça
senti o fedor insuportável de merda
subindo daquele esgoto a céu aberto
e lembrei das fotografias antigas
há pouco vistas no livro do sebo
e não pude evitar de pensar
— caramba que situação deplorável
na minha cabeça ficou martelando
a pergunta que não queria calar
— será isso progresso? se for
que porra de progresso é esse?

domingo, 25 de junho de 2017

Delírio dominical


logo cedo a longa espera abominável espera

na sala de espera do consultório médico

porra é domingo e está superlotado de gente

não é possível esta cidade está

cada dia pior insuportável

ainda bem que tenho você pra me suportar

compreender amar

o arroz congelado descongelado no micro-ondas

requentado no forno convencional a gás

ficou duro uma merda

mas não importa o que importa é que estamos aqui

juntos nos querendo nos amando

comendo este arroz duro de merda

tomando este chardonnay importado argentino gelado

uma delícia você não acha acho que bom

depois vamos tomar um café vamos

a gente podia ir dançar

preciso cuidar das plantas

cheiro de mato cortado

cheiro de terra molhada

e no céu

o dinossauro quer te abocanhar

avanço empunhando minha espada

pra te defender é claro

não é necessário o vento amigo colabora comigo

transforma o dinossauro em sapo

que a moça donzela deve beijar

pra ele virar príncipe desencantado

a lua quarto crescente brilha no quarto

na sala na varanda

cresce seu brilho ao te ver pra ela olhar

olho daqui de cima a vida lá embaixo

e olho pra cima e acho que percebo

quanto sou arrogantemente insignificante

no banho o sabonete me transforma em espuma

e meu corpo imundo escorre

pelo ralo do box do banheiro

arrastado para o esgoto com a água do chuveiro

momentaneamente aqui neste ambiente

sou apenas espírito

perfume de magnólia artificial no ar

mais tarde de madrugada na cama

voltarei a me corporificar

não perdes por esperar

por ora devo armazenar bom estoque de cuspe

pra lubrificar o membro e poder melhor te penetrar

e então sim definitivamente me dissolver

me dissolver indefinidamente em ti

caramba esta grappa é mesmo danada de boa