sábado, 17 de janeiro de 2015

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— Eita pergunta complicada essa que o senhor me faz! Valeu a pena? O que posso lhe responder? Eu acho que sim. Pelo menos pra mim. Pra mim valeu sim. Apesar de conhecer um monte de gente que vai dizer que não, que não valeu. Mas isso porque é tudo gente pessimista, gente que só tem olho pra olhar o lado ruim das coisas. O senhor pode crer nisso. Eu não. Eu procuro enxergar o que a vida tem de bom. E é por isso que eu digo que valeu a pena. Agora, se o senhor me perguntar se foi difícil, eu falo sem pestanejar que aí são outros quinhentos. Não, não foi nada fácil, não. Mas todo mundo está cansado de saber que o difícil não é fácil. É por isso que tem valor. Senão não teria graça, não é mesmo? Porque de uma coisa a gente pode ter certeza, quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor...


(do ebook “Yby katu, Yby poranga – Terra boa, Terra bonita”)

sábado, 10 de janeiro de 2015

IMODÉSTIA


Se algum mísero mérito literário fosse, eventualmente, algures, um dia, atribuído à minha desprezível mortal pessoa, então, provavelmente finalmente morta, creio, talvez, decorreria ele do fato de eu gozar da inata capacidade intelectual de conseguir formular pensamentos alheios utilizando palavras de outros.

 
(em “Crônicas Anacrônicas – Grotesca Filosofia Mediocridade Sublime” (inédito))

sábado, 3 de janeiro de 2015

SINTAXE CONJUGAL

Os amigos todos procuraram auxiliar
aconselhando, admoestando, ajuizando, argumentando
tanto era o amar com jeito infinitivo.
O gesto exprimido com abundância participativa não foi aceito.
Foram engolidas pelo vento as vozes passivas.
Manteve irredutível posição radical
categórico afirmou em voz ativa:
— Não falarei mais nada sobre esse tema.
Se no início seu indicativo futuro
sugerira desinência mais que perfeita
a descoberta daquela forma um tanto irregular
com a qual ela haveria de ter conduzido o futuro do pretérito
abolia o condicional da conjugação no modo subjuntivo.
Era impossível aceitar a concordância do pretérito imperfeito
da ex-amante com seu modo imperativo
de encarar a vida. Assim justificou o comportamento defectivo.

(do livro “Poesia... Afinal pra quê?”)
http://books.google.com.br/books?id=WesXBAAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false