domingo, 10 de agosto de 2014

NA CIDADE GRANDE


Na cidade grande
as pessoas vão passando pelas ruas
sem se importar umas com outras
quase sempre ninguém nunca se cumprimenta
caso os olhares se cruzem
no mesmo instante se desviam
procurando outros lugares.

Na grande cidade
as pessoas só param na rua
para satisfazer mórbida curiosidade
alguém foi assassinado numa perseguição
morreu atropelado por veículo na contramão
foi achado morto estendido no chão
atingido no peito por bala perdida
ou caído do alto de uma sacada.

Na cidade grande
as pessoas dia a dia ficam mais pequenas.



terça-feira, 5 de agosto de 2014

TUDO COMO DANTES NO QUARTEL DE ABRANTES

A nova camarilha, matilha de lobos em pele de ovelha –– a camarilha do Partido dos Laboradores – dando continuidade a todas as camarilhas anteriores, finalmente de posse do alto poder posicionado no planalto central do país, não fez por menos, sem a menor cerimônia, com todo despudor, para desencanto de poucos aflitos esclarecidos, outro tanto nem tanto, honrou a irremediável tradição política do país e manteve descaradamente desfraldada a bandeira da desfraudação.   


(em "Crônicas Anacrônicas - Grotesca Filosofia Mediocridade Sublime" - inédito)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A Agulha, a Linha e o Alfinete (ou “Outro Apólogo”)

            Ia ter um grande baile na cidade e a rica senhora decidiu, como era seu costume, fazer um vestido novo. Chique. Lindo. Maravilhoso. Mandou então vir a modista à casa para escolher modelo, tecido, adereços etc. Cumprida essa etapa, a modista retornou a seu atelier; traçou o molde conforme o escolhido; reuniu o material necessário, designou a costureira mais experiente de sua equipe para a tarefa e mandou dar início imediato ao importante trabalho. A costureira cortou o tecido de acordo com o molde; juntou as partes; pegou da agulha; pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Aquele vestido era pra ser feito à mão, com o máximo capricho possível. Iam, Agulha e Linha, andando pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos ágeis da costureira quando a Agulha teceu as seguintes considerações:
            — E aí prezada Linha? Você não repara não que esta distinta costureira só se importa comigo? Que sou eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, cosendo...
            — Cosendo? – disse a Linha. Você fura o pano, e olhe lá, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço de tecido a outro, dou feição aos babados...
            — E daí? Se eu não furasse o pano não haveria costura. Eu é que vou adiante, puxando você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
            — Faz e manda? Ora essa!  Quem controla você é a costureira. Nesta peça, minha cara, você tem um papel secundário; vai adiante, mas tem que seguir o caminho do molde. Eu não; eu uno as partes e formo o todo. É por isso que nesta peça sou eu a artista principal, alinhavou a Linha.
            — A senhora é vaidosa ambiciosa, isso é o que a senhora é; quer sempre só ajuntar, ajuntar mais e mais pano, disse a Agulha com agudeza.
            — E a senhora o que é? Uma pretensiosa volúvel que acha que faz um grande serviço e mal chega num lugar já quer logo ir embora, em busca de novas aventuras. Enquanto a senhora passa, eu permaneço, replicou a Linha sem perder a linha. Além disso, a senhora devia era cuidar da sua vida e deixar os outros viver em paz. Perdeu uma boa oportunidade de calar o bico, arrematou a Linha.
            — Eu disse e repito: ambiciosa, ambiciosa, ambiciosa; e direi sempre que me der na cabeça.
            — Dar na cabeça? Que cabeça? Não seja ridícula, minha cara. E a senhora tem lá cabeça? Quem tem cabeça é alfinete e a senhora não é alfinete, é agulha. E agulha não tem cabeça...
            Diante de resposta tão contundente, mesmo para uma agulha, a Agulha se calou. Dali pra frente o silêncio tomou conta da sala de costura. Terminada a jornada de trabalho daquele dia, a costureira dobrou a costura para o dia seguinte; continuou nesse e no outro, até que no quarto dia acabou a obra.
            Veio a tão esperada noite do baile. A rica senhora vestiu-se com o vestido novo com a ajuda da costureira que trazia a Agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. A Linha, para provocar a Agulha, ironizou:
            — Me diga agora, dona pretensiosa volúvel, quem é que hoje vai ao baile, no corpo da rica senhora? Quem é que vai dançar e se divertir a noite toda, enquanto a senhora volta pra caixinha de costura? Vamos, diga lá.
            A Agulha não disse um a, mas um Alfinete, desses de cabeça grande, que tinha ouvido toda a conversa pensou com seus botões:
            — Uma, porque vai à frente furando o caminho, acha que é grande coisa, mas esquece que sempre acaba logo, logo voltando abandonada aqui pra caixinha de costura. Outra, porque prende um monte de pano fica cheia de si e não leva em conta que na próxima festa a rica senhora vai usar outro vestido novo e ela vai acabar mofando esquecida no escuro do armário. Pensando bem, nesta história toda, posso me considerar mais feliz. Eu furo e fico. Eu desbravo e uno. E de tempos em tempos mudo de paisagem.