domingo, 24 de novembro de 2024

Terra querida

vou embora agora 

deste mar de rosa

cravado de espinho


aqui a terra é prometida 

só falta ser melhor repartida

terra de todo mundo


ao dar o fora vou sentir saudade 

talvez volte num ano que vem

adeus terra querida terra de ninguém 



segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Tangolomango

De tanga, um dia desses,  chupava eu uma manga 

sentado folgado debaixo da sombra dum pé d’alho.


Veio um veado com bruta chifre cheio de galho e 

espetou minha bunda. Deixou ela com dor profunda.


Eu peguei e virei pro veado e disse assim: 

— O veado de merda vai espetá outro palerma.


O veado com cara invocada olhou pra mim e falou:

— Só se fô desse tipo igual o seu.


E eu:

— O seu atoa qual tau tipo meu já sabê quero eu  


O galhado na lata 

— Não nego meu nego tipu zero

domingo, 10 de novembro de 2024

Sopa de sapo

por mais que se evite se acaba obrigado

a engolir um sapo depois outro e outro

e o bicho ali dentro remói a paciência

deixa na língua um gosto amargo de fel

nem se compara é muito pior o safado

que sarro em boca amanhecida de cigarro

tem hora que a gente quer gritar basta

apela até pra conceitos de neoescolástica

procura inventar uma crise diferente

que deixasse mais sereno o ambiente

cede às artimanhas do amor no desespero

porém não tem jeito o danado não some 

domingo, 3 de novembro de 2024

Sonho meu

acostumei com meu destino de roer osso

atolado em dívidas acima do pescoço

se tivesse florescido numa família distinta

qual o que isso é espécie há muito extinta


continuarei a curtir minhas horas áridas

não me resta mais nada não tenho guarida

estou enjoado de estudar mitologia


quero partir pra coisas mais arejadas

deixar o estigma de desvendar enigmas

as ideias sempre povoadas de monstros


quero coisas mais simples pra pensar

deitar de noite na cama sem precisar

de luz acessa pra poder dormir


não vou persistir no erro crasso

de viver deste modo aéreo arre

insistindo acreditar em milagre


a partir de agora vou ficar na flauta

deixar o tempo rolar eis minha pauta

empregado permanentemente na caixa

não saio mais dessa só salário na faixa 

domingo, 20 de outubro de 2024

Dúvida real

Fernando Pessoa, segundo dizem, disse, 

por meio do Alberto Caieiro, 

que a realidade não existe, mas apenas sensações. 

Beleza!

Daí fiquei em dúvida:

Se e a gente leva um soco no nariz, 

que vira uma batata de tão inchado,

sangrando pelas narinas,

é apenas sensação ou se pode chamar de realidade?

domingo, 6 de outubro de 2024

Soneto clichê (fora de moda)

sem nenhum motivo te pões a chorar

previno-te que começo a me cansar

foi o tempo disso me fazer abrasar

a idade o fogo só faz abrandar

devias achar outra conduta a te guiar

porque saturado me posso tornar

bom seria se pudesses me escutar

senão serei obrigado a te deixar

se agora caminhamos por vales

tivemos a fase de pico no amor

não movem moinhos as passadas águas

não devemos ter olhos apenas pros males

senão se acentua a inevitável dor

mas insistes no chafurdar em mágoas


domingo, 29 de setembro de 2024

É preciso

no fugaz fluir do tempo

em cada seu precioso instante

pretender encontrar motivo para fruir a vida.


Em qualquer direção,

 em qualquer negócio, 

em qualquer reviravolta de eventos, 

com equilíbrio e harmonia

com esforço ou obra do acaso.


Porque tão exata quanto a missão da luz é revelar a treva

o fim é inevitável 

e o restante se dissolve de alguma forma no próprio resto 

e desaparece sem deixar rasto.    

domingo, 15 de setembro de 2024

Bye bye ar pra respirar

 Atmosfera da Terra 

filtro protetor do planeta 

fonte de oxigênio e de nuvem

sem ela a vida vai pro beleléu   


Ser humano 

detentor da Razão e senhor supremo da Terra

envenenou o supracitado filtro 

continua envenenando e está destruindo a vida

domingo, 8 de setembro de 2024

Socorro providencial

pescoço pode ser fino pode ser grosso 

de gente importante ou indecente 

a anatomia ensina ele vem com osso 

língua e pinto, porém nem tanto 

língua ainda bem se alguém desse com a língua nos dentes 

dantes com osso ia machucar muito mais 

agora pinto poderia até ajudar 

pelo menos digamos assim tipo um metatarso 

dependendo das circunstâncias evitaria certo embaraço 

o que vocês acham? 

enquanto pensam vou circular 

tchau um abraço!


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O agora já era!

O presente, na flecha do tempo, 
foi o futuro, instante antecedente que
instantaneamente,
será o passado, instante subsequente 
irreversívelmente.

E a gente não sente 
engalfinhados no balanço das horas,
cotidiano, tarefas banais, vida mesquinha
todavia,se achando os tais.

E aqueles projetos? os grandes, com sustança? 

E os não tão grandes, os médios, os pequenos?
 tudo pro ralo da vida marota?
atalho saída pra virar tudo bagulho?

E a noite de novo dormir é preciso 
bem tem quem tem um abrigo, amigo
é pra essas coisas, que coisas?
por favor, me esclareça! 

E de manhã (se houver amanhã) o recomeço,
ciscar o nada, garimpar o vazio,
quem sabe talvez encontre alguma pepita, pirita, ouro dos trouxas,
zorra! nem isso! 

O difícil não é fácil! O difícil pede açoite!

Que seja!

Boa noite!

domingo, 18 de agosto de 2024

Sobrepeso

 


me considero um sujeito manso 

entre sorrisos não me canso de pensar (com esforço) 

“ainda venço esse peso” 

além disso, acho que nasci para dançar 

porque desde cedo entrei na dança 


ainda no berço

minha mãe contava, eu dançava e sorria

agitava as perninhas como uma dança dando risada, talvez querendo chamar a atenção para lembrar que a mamada estava atrasada 

na adolescência

quando meu pai tossia, por causa do catarro do cigarro que precocemente o levou para o túmulo e se exaltava pelo efeito do álcool

eu, para relaxar a tensão, sorrindo dançava 

quando minha mãe se punha a soluçar, por causa da sua eterna infelicidade 

eu, para tentar alegrá-la, dançando sorria 

mais tarde 

se me provocavam, sorria e ensaiava uns passos de dança 

nem que fosse a dança de rato  


e por isso digo que sou um sujeito manso 

predestinado sorridente dançarino pesado

pra não arriar eu danço pra não chorar eu rio 

e assim procuro aliviar minha sobrecarga

domingo, 11 de agosto de 2024

Tarde demais

embora diferentes somos iguais num ponto

nosso fim comum é virar pó um dia

essas palavras pedestres representam situação que creio só podemos inferir por analogia porque na hora desse nosso ver para crer sob o ponto de vista terrestre nosso eu não estará ali pra conferir

eu por exemplo quando estiver presente nesse fim de festa mundano caso ainda tiver consciência de mim talvez assim pensasse:

— ah quisera ter dado e recebido mais beijos desviado os olhos do meu umbigo agido às claras sem a camuflagem da meia-luz trocado o áspero pelo suave empregado discurso aberto e franco em vez de murmúrios cheios de subterfúgios sentido piedade em lugar de crueldade pretendido tesouros mais puros em vez do dinheiro até o total esfacelo e principalmente amado o próximo como a mim mesmo

e provavelmente ainda concluiria:

— pena isso não ter acontecido mas agora é tarde nada mais pode ser feito

domingo, 4 de agosto de 2024

Só

constrito em meu canto desfio meu canto 

suas idas e vindas suas voltas em ritmo frouxo 

melodia abafadiça desarmonia 

meu devaneio 


se me fosse dado sabê-lo sintonizado 

nem que fosse a ouvidos moucos 

meu balbucio rouco 


clamor de velho criança parado no era uma vez 

perdido na melancolia de sonhos desfeitos num sopro 

vã esperança de confundir poesia com vida 

tentativa para um viver melhor 

dono somente de letras gastas quais velhas putas 

que se dão a qualquer um a qualquer preço 

para formar fatigadas frases roubadas do baú da literatura 

lamentosa voz obscura que quer clamar amor 

e sucumbe sem estrondo à porfia da realidade  

e se sente carente de sentido 

dilatando os limites desta densa sombra escura 

que insiste em me envolver  

domingo, 28 de julho de 2024

Só um olhar

há muito de uma paixão ausente vivia eu meus dias concertados

quase esquecido dos magoados pensava sem amor melhor se sente

você surgiu então tão docemente trazendo os seus modos delicados

depressa nos tornamos enamorados entre nós nasceu muito bem assente

relacionamento de afeto honesto frutificado em fidelidade rigorosa

comunhão cada um com sua parte a partir de um olhar simples gesto

promovedor da façanha milagrosa transformar nossas vidas em arte

domingo, 21 de julho de 2024

Só sarro

 este sarro que sai na boca de manhã

fruto do que no estômago acontece

durante a noite quando o corpo esquece

de se arrastar por aí e cai numa cama vã

é o que de mais interessante

consegue produzir este plebeu

que já teve sonhos nobres eu

sim mísero a seguir adiante

sem sequer de si sentir pena

nem daquelas que cruza com elas

melhor desejo seu ter morte serena

assim de mais um vivente posta está

a vida vazia de tantas coisas belas

e boas que incríveis pelo mundo há

domingo, 7 de julho de 2024

Sinistro desejo

tendo pouco a escolher

entre dias tão rançosos

só cumprir tedioso dever

querendo ficar na cama

na luz do amanhecer

ser tomado de covardia

na ânsia de mais não-ser


arreda sinistro desejo

tal não pode acontecer

onde está esta cabeça

não é modo de dizer

põe de lado esta ideia

não deixes a vida saber

mergulha em tua lida

é o que deves fazer

domingo, 30 de junho de 2024

Ser humano

 bom seria se ao bem não houvesse tardança

porém com verdadeiro sentimento

se viveria em um real contentamento

privilégio que tão só um ou outro alcança

se gozaria da plena segurança

de não receber nem causar tormento

nem que fosse por mero esquecimento

pois estaria o bem sempre na lembrança


talvez gostemos que outros se entristeçam

ou com nossa dor eles se contentem

e daí do bem todos logo se esqueçam

pouco se importando que se atormentem

e o nome de desumanos não desmereçam

posto que desamor é o que mais sentem


porém fraca é a dor repartida com a dor alheia

domingo, 23 de junho de 2024

Sonho meu

acostumei com meu destino de roer osso

atolado em dívidas acima do pescoço

se tivesse florescido numa família distinta

qual o que isso é espécie há muito extinta


continuarei a curtir minhas horas áridas

não me resta mais nada não tenho guarida

estou enjoado de estudar mitologia


quero partir pra coisas mais arejadas

deixar o estigma de desvendar enigmas

as ideias sempre povoadas de monstros


quero coisas mais simples pra pensar

deitar de noite na cama sem precisar

de luz acessa pra poder dormir


não vou persistir no erro crasso

de viver deste modo aéreo arre

insistindo acreditar em milagre


a partir de agora vou ficar na flauta

deixar o tempo rolar eis minha pauta

empregado permanentemente na caixa

não saio mais dessa só salário na faixa


domingo, 16 de junho de 2024

O poema

o poema que pousa diante dos olhos 

é um pássaro vindo de alhures 

talvez trazendo no bico um augúrio

ou alguma espécie de outro alimento 

se ignorado ele alça voo como se ali fosse um galho ao relento

vai à procura de outro pouso ver se tem um instante de atenção 

e pode ter sido perdido o encanto da ocasião de mergulhar no espanto 

de saber que o alimento que ele oferecia

talvez amenizasse um pouco uma agonia 

talvez desse algum alento a uma estreita alegria


ou por mero acaso então, 

o gesto de ignorá-lo evitou que se ingerisse algo indigesto 


por que não? 

domingo, 9 de junho de 2024

Nudez sem castigo

nudez sem vergonha agora 

sob o lençol de algodão barato

indiferente às manchas de sangue tingindo o tecido


mais tarde cheira mal com traje social 

em lugar restrito nem janela nem porta

desnecessária a presença do sol 


depois um montículo seco

razoável acúmulo de pó

 e outros detritos por cima


em linhas gerais 

o destino da defunta nudez  

antes viva cheia de altivez